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Story e trama

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Capa do verbete Story e trama: corrente de elos de papel alinhados.
Capa do verbete Story e trama: corrente de elos de papel alinhados.

Story é a sequência de acontecimentos; trama é a cadeia de causa e efeito que os organiza e dá a eles consequência.

Story e trama

Story é a sequência de acontecimentos de uma história, na ordem em que eles ocorrem. Trama é a cadeia de causa e efeito que organiza esses acontecimentos e faz cada um puxar o seguinte. A primeira coleciona eventos; a segunda os amarra. A diferença é fácil de declarar e difícil de manter: a maior parte dos relatos que parecem fracos não tem problema de fato, tem problema de amarração.

De onde vem a distinção entre story e trama?

A distinção consagrada vem do romancista e crítico britânico E. M. Forster, que formulou o par em Aspects of the Novel, de 1927, na passagem que a crítica segue citando como definição de trama. O mecanismo cabe em duas frases sobre um palácio: “o rei morreu e depois a rainha morreu” é story, dois acontecimentos em sequência temporal. “O rei morreu e a rainha morreu de dor” é trama, porque a segunda morte ganha causa na primeira, e a causa abre uma pergunta que o texto precisa pagar.

O que separa as duas frases não é o que acontece, é a engrenagem que liga o que acontece. Na primeira, o leitor sabe o que ocorreu. Na segunda, o leitor entende por que ocorreu, e a distância entre saber e entender é exatamente a distância entre sequência e consequência.

Por que “depois” não basta para fazer trama?

O “e depois” conecta no tempo; o “porque” conecta na lógica. Os dois podem aparecer juntos, mas não são a mesma coisa, e o relato real vive da confusão entre eles. A venda fechou na semana seguinte à reunião, então a reunião causou a venda: pode ser. Também pode ser que a decisão tenha sido tomada antes, por outra razão, e a reunião só tenha ocupado a semana. A cronologia sugere causa, e sugestão não fecha elo.

O teste que separa os dois casos é simples: o acontecimento teria ocorrido do mesmo modo sem o acontecimento anterior? Se a resposta é sim, o “depois” é real e o “porque” é decorativo. Trama só existe onde o segundo fato depende do primeiro, e dependência é propriedade lógica, não propriedade do calendário.

O que cem contos populares provam sobre a trama?

Vladimir Propp estudou cem contos populares russos e publicou em 1928 a prova de que a trama é uma camada própria: histórias de superfícies completamente diferentes se apoiam nas mesmas trinta e uma funções, a proibição, a partida do herói, a prova, o retorno. A anatomia completa dessas funções está na Morfologia do conto maravilhoso, examinada em verbete próprio na Estante.

O ponto do achado é o inverso do óbvio. Se trama fosse apenas a lista dos acontecimentos, nenhum conto repetiria a trama do outro, porque nenhum repete os fatos. O que se repete de conto em conto é o jeito de amarrar os fatos: os acontecimentos trocam de personagem, de cenário e de época, e a engrenagem causal continua a mesma. Camada que sobrevive intacta à troca de todo o conteúdo é camada própria, não detalhe do conteúdo.

Por que um relato cheio de fatos ainda parece chato?

Um relato sem trama é cronologia: reunião, reunião, lançamento, fechamento de trimestre. O leitor acompanha e não retém nada, porque nada puxa nada. A trama é o que transforma sequência em consequência: o cliente não comprou depois da reunião, comprou porque a reunião destruiu a objeção que sustentava a concorrência. Toda vez que um relato corporativo parece chato sem que nada esteja errado nos fatos, o que falta raramente é fato novo. Falta a amarração causal entre os fatos que já existem.

O tédio é localizável. Ninguém acha chato um relato em que a próxima frase depende da frase anterior, porque a dependência gera expectativa, e expectativa segura a atenção. O que cansa é a frase que poderia vir em qualquer ordem, porque frase sem lugar é frase sem peso.

Como construir a trama de um relato real?

A construção cabe num procedimento curto, e a ordem dos passos é parte do procedimento:

  1. Liste os acontecimentos na ordem em que ocorreram, sem tratar nenhum como causa ainda.
  2. Para cada acontecimento, escreva a frase que o liga ao seguinte com um “porque”. Onde o “porque” não sobrevive, não há elo: o acontecimento é candidato a corte.
  3. Procure o fato que mudou a direção, a decisão que fechou caminhos. É ali que a trama ganha dobradiça.
  4. Deixe a cronologia servir de teste: reordenar a apresentação é permitido, inventar elo causal não é.
  5. Confira o relato pronto contra a cronologia real: a trama reordena e recorta, mas cada “porque” do texto precisa ser verdade.

Story e trama são o mesmo que história e narrativa?

Não, e a diferença entre os dois pares é útil. A distinção entre história e narrativa separa a ordem em que os acontecimentos ocorreram da ordem em que são apresentados. Story e trama separam a sequência dos acontecimentos da engrenagem causal que os organiza. O story de um caso equivale à sua história; a trama é a construção que aposta em causa e efeito para apresentá-lo.

Os dois pares viajam juntos porque uma narrativa decide, no mesmo gesto, a ordem de exibição e as amarrações que ficam visíveis nela. Quem entende a fronteira entre história e narrativa já tem metade do caminho para entender a fronteira entre story e trama, e o glossário do campo reúne os termos vizinhos que completam esse mapa.