Travei
O travamento de escrita não chega como argumento. Chega como fato do corpo. E isso muda o que serve para desfazê-lo.
Travei
Na véspera da palestra, no fim de semana reservado para o artigo, na noite em que o post enfim ia sair. A pessoa tem o tema, tem a experiência, tem o que quer dizer. Senta para escrever. E a frase que aparece não é sobre o texto, é sobre ela: “travei.”
Não como pensamento. Como fato do corpo.
A trava de escrita não chega em forma de argumento. Não é “eu me avaliei e concluí que não tenho nada a dizer”. É um suspiro mais curto, uma aba a menos aberta, a cadeira na frente da tela que de repente fica incômoda. E porque não tem argumento, não cede a contra-argumento. Você pode saber que tem história e mesmo assim não conseguir escrever a primeira frase.
Por isso, nenhuma lista de dicas de escrita resolve esse tipo de trava. O problema não é técnica. É permissão.
A crença que produz o travamento, quando você a encontra em forma de frase, soa assim: quem sou eu para ocupar o tempo de alguém. É uma avaliação sobre onde você está na hierarquia de quem merece atenção, e ela costuma ter sido formada antes de qualquer tentativa de publicar.
Como diz Fernando Palacios sobre o começo da própria carreira, vinte anos atrás: “Não achava que eu tinha nada de interessante pra falar, pra criar.” A avaliação estava errada. A sensação de estar na posição errada para ser ouvido, não.
O que muda, em geral, não é a crença. O que muda é o que a pessoa faz com o travamento quando ele chega. Tratar a trava como personagem: personagem tem fala, e fala se escreve. Antes da primeira linha do texto, escreva a frase que a trava diz, com as palavras dela. Fora da sua cabeça, a frase perde a autoridade que tinha dentro.